Sobre ipês e memórias

Por Marcos Roberto Machado

Outro dia, li uma notícia em um portal de notícias da Serra que me fez voltar no tempo. A matéria era sobre um projeto desenvolvido pela Prefeitura para arborizar algumas avenidas do município. A ideia era plantar ipês em determinadas avenidas, escolhendo uma cor específica para as árvores, de forma a caracterizar aquele trecho. A cidade, aos poucos, ganharia suas próprias estações de cores e uma identidade multicor.

Li a notícia e, de repente, já não estava mais na Serra. Eu estava no meio do mato, sentado em um Jeep com meu pai. Era daqueles Jeeps antigos, quadrados, sem muito conforto. Para uma criança, entretanto, aquilo era uma espécie de aventura radical sobre quatro rodas. Como ele era todo aberto, o vento entrava por todos os lados, o caminho de terra sacudia o corpo inteiro e a estrada, quase sempre ruim, exigia um equilíbrio constante.

Eventualmente, meu pai me levava com ele nessas tarefas. Não tenho muitas lembranças de criança ao lado dele, mas esta, despertada pela leitura da notícia, ressurgiu muito forte na minha mente.

Ele saía à procura de mudas de ipês, atendendo ao pedido da esposa do dono da fazenda onde morávamos. Naquela época, fora do período da colheita de café, meu pai era quase um faz-tudo para os patrões. Não sei exatamente quando aquilo começou nem quantas vezes fomos. Provavelmente várias. Há lembranças que deixam de ser contáveis e apenas existem.

Meu pai sabia bem os lugares onde procurar. Nasceu na roça e, desde pequeno, conhecia um pouco de tudo que envolvia aquele universo.

Entrávamos por estradas de terra, atravessávamos trechos de mato e, vez ou outra, parávamos para procurar alguma muda que pudesse ser retirada e replantada. Ele voltava para o Jeep carregando pequenas árvores, ainda frágeis, com as raízes envoltas em terra.

Eram ipês-amarelos, ipês-roxos, ipês-brancos…

E eu ia ali, dividindo o pouco espaço do Jeep com aquelas mudas. Não sei se, naquela época, eu achava aquilo interessante. Provavelmente. E, nessas idas e vindas, tudo ficou guardado em algum cantinho da memória, esperando o momento certo de me interpelar.

Hoje, quando vejo um ipê florido, não vejo apenas uma árvore. Vejo aquele Jeep. Vejo a estrada de chão. Vejo meu pai procurando as mudas. Vejo aquelas pequenas árvores amontoadas ao nosso lado, esperando chegar ao lugar onde seriam replantadas.

Meu pai carregava árvores sem saber que, muitos anos depois, eu carregaria a lembrança daquele momento. É por isso que a notícia que li me tocou. Não apenas porque imaginar avenidas inteiras tomadas pelas cores dos ipês seja bonito, mas porque, de algum modo, ela me fez voltar a um lugar que já não é mais o mesmo, com alguém que infelizmente não está mais fisicamente aqui.

Por alguns instantes, voltei a ser criança.

Voltei ao Jeep quadrado e aberto.

Voltei ao caminho de terra.

Voltei ao lado do meu pai.

E, entre nós, havia aquelas pequenas mudas de ipê, amarelas, rosas, brancas, que representavam, para ele, o cumprimento de um dever e, para mim, uma aventura. No entanto, sem que nós dois soubéssemos, aqueles momentos estavam plantando em mim uma lembrança que floresceria muitos anos depois.

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Danuza
Danuza
9 dias atrás

Sua escrita é uma verdadeira…’Escrita de Si ‘.