Aquilo que (não) faz sentido

Como todos os dias, chego à escola antes das sete. O portão ainda fechado para os alunos, o pátio com aquele silêncio que dura pouco. Carrego comigo o material da aula, mas também uma inquietação que já virou rotina: como despertar interesse em quem, aparentemente, não vê motivo para se interessar?

Não é por falta de incentivo. Pelo contrário. Nunca houve tantos. Programas de permanência, auxílios financeiros, distribuição de material, alimentação garantida. E os livros didáticos, sempre eles, organizados, catalogados, entregues gratuitamente a todos os estudantes.

Pilhas e pilhas de conhecimento pronto, revisado, estruturado chegam à escola e são rapidamente separados e entregues a todos os alunos. O Estado garante aquilo que, para muitos de nós, já foi um privilégio raro.

Durante o processo de distribuição dos livros, a coordenadora pedagógica pediu que nas minhas horas de trabalho administrativo eu auxiliasse na tarefa. Acabei ficando sozinho recebendo grupos de alunos na biblioteca e entregando os materiais: eram 10 livros para cada estudante. Foi nesse dia que voltei no tempo.

Lembrei-me do primeiro livro didático que meus pais tiveram de comprar. Foi na sétima série. A professora de Ciências pediu, com uma seriedade que hoje reconheço como compromisso, que adquiríssemos o livro. Em casa, meus pais fizeram contas. Não era uma compra simples. Custava caro, e ainda custa.

Quando o livro chegou, foi quase um acontecimento na turma. O cheiro das páginas novas, a capa intacta, o peso nas mãos. Era meu. Pela primeira vez, um livro meu. Não emprestado, não compartilhado, não passado de mão em mão. Meu. Havia ali um valor que ultrapassava o conteúdo: era conquista, era investimento, era uma promessa.

Hoje, distribuo livros que, muitas vezes, nem chegam a ser abertos.

Não raro, vejo exemplares intactos ao final do ano, capas ainda intocadas, páginas que não conheceram o desgaste do uso. Alguns alunos sequer sabem em que momento da aula o livro deveria entrar. Outros o esquecem, perdem-no, deixam-no na escola, no armário do corredor, como quem deixa algo sem importância. Já me perguntei algumas vezes se quando o acesso se universaliza, o valor simbólico diminui…

Não se trata de defender a escassez, o que considero absurdo. Democratizar o acesso ao material didático é uma conquista importante e inegociável. Mas há algo nesse processo que não conseguimos resolver: oferecer não garante apropriação. Entregar não significa que será usado. Disponibilizar não cria, automaticamente, vínculo.

Dentro da sala, a cena se repete. Alguns atentos, outros dispersos, muitos ausentes mesmo estando presentes. Olhos baixos, dedos ágeis na tela, respostas curtas quando provocados. O livro está ali, mas compete com um mundo inteiro que cabe na palma da mão: o celular, que, embora proibido, segue firme e forte.

E, ao mesmo tempo, seguimos com as exigências. Notas precisam aparecer. Aprovação precisa acontecer. Se não deu certo na primeira tentativa, há a recuperação. Depois, outra. E mais uma. Recuperação paralela, contínua, trimestral, final. Um sistema que se esforça para não deixar ninguém para trás, mas, paradoxalmente ou não, às vezes parece não conseguir levar ninguém adiante.

E então, o que significa estar na escola? O que significa aprender? E talvez seja isso que mais me inquieta.

Porque, no fundo, não é sobre o livro em si, seja aquele que meus pais compraram com esforço, sejam aqueles que entreguei gratuitamente. É sobre o que ele representa. Ou, ainda, sobre o que ele deixou de representar ao longo do tempo, e fica a questão: como devolver significado àquilo que parece não fazer mais sentido?

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Helena Rungue
Helena Rungue
1 mês atrás

É uma crônica, mas poderia ser tema de várias teses de doutorado diferentes. A modernidade tem nos surpreendido e a sensação é a de estar no lugar de Sisífo ou Tântalo, com pouquíssimos resultados considerado os esforços. Toda a minha admiração ao professor que ainda consegue se mover bem nesse solo e, mais ainda, reconhecer tão precisamente tantas nuances complicadas.
Muito bom o seu texto, M.R!

Brenda Bernardes
Brenda Bernardes
Responder para  Helena Rungue
1 mês atrás

Eu penso muito sobre isso Marcos. O que fazer? Primeiro: tolerância zero ao celular dentro da escola. Isso precisaria ser assumindo com mais seriedade pelos gestores. Segundo: tempo para ler livros. Minhas escolas de Marechal as vezes marcavam no relógio, a escola ficava 50 mij em silêncio. Todo mundo lendo, podia ser qualquer livro. No final de cada ciclo, a gente se reunia em roda pra compartilhar e contar o livro que leu. Parece uma narrativa utópica, de um tempo que não havia celular. Mas cortando ele pela raiz, tolerância zero igual lei seca. Acho que pelo menos dentro das 5 horas de escola, talvez consigamos criar uma trincheira de resistência.