E esse tal de protagonismo estudantil…
Já faz algum tempo que uma expressão vem me incomodando na escola, não pelo fato de ela existir, mas pela força simbólica e reivindicatória que ela perdeu com o tempo, passando a flertar descaradamente com o caricato e irônico. Quando falo em protagonismo estudantil volto algumas décadas no passado, quando a participação ativa dos jovens estudantes provocava rupturas e abalos naquilo que até então se apresentava como fixo e imutável. A força jovem estava lá, reunida em movimentos estudantis que se espalharam pelo mundo, em busca de conquistas e desejosa de transformação.
Dentre esses movimentos, faço uma rápida referência ao Mai 68, na França. Embora tenha ficado conhecido como “Maio de 68”, um dos marcos iniciais do movimento ocorreu ainda em março, na Universidade de Nanterre, próximo a Paris. Em 22 de março, estudantes ocuparam uma sala da universidade para protestar, entre outras questões, contra as restrições à participação política no campus e contra a repressão às manifestações relacionadas à Guerra do Vietnã. A partir dali, a mobilização estudantil ganhou força e, em maio, chegou ao centro de Paris, provocando confrontos com a polícia, ocupações universitárias e uma onda de protestos que rapidamente ultrapassou os limites das universidades. O movimento estudantil acabou se encontrando com uma gigantesca mobilização operária, já existente e marcada por greves e ocupações de fábricas. As reivindicações também extrapolavam as questões estritamente universitárias e colocavam em debate costumes, relações de autoridade, sexualidade, moral, trabalho, consumo e os próprios modelos de organização da sociedade. Era uma juventude que, naquele momento, não estava apenas ocupando espaços: estava questionando o mundo que lhe havia sido entregue. Cito, ainda, no Brasil, as Diretas Já e o movimento dos caras-pintadas, que levaram às ruas parcelas significativas da sociedade e, no caso dos caras-pintadas, tiveram forte participação da juventude estudantil.
Mas por que fiz referência a esses movimentos que marcaram a história? Exatamente para mostrar que o tal protagonismo estudantil já teve sua força argumentativa, reivindicatória e transformadora no passado. Mas, hoje, o que restou disso tudo?
Quase nada. Explico:
Como falar em protagonismo estudantil quando a escola precisa ligar para a família para avisar que o aluno está faltando? Como falar em protagonismo quando é preciso telefonar para a família do estudante para informar que o filho não alcançou a média do trimestre em determinadas disciplinas e que precisa fazer a prova de recuperação?
Como falar em protagonismo quando o aluno falta à aula sem justificativa e sequer procura o professor para saber o que foi dado, se há atividades avaliativas? Ele não pergunta ao professor. Não procura a atividade. Não tenta descobrir o conteúdo. E quem vai atrás de tudo isso? A escola. O setor pedagógico procura o professor, pega a atividade, organiza e manda para o aluno. Sem mencionar os e-mails, os lembretes para o estudante não se esquecer de entregá-las nas datas previstas. E não é exagero meu: há algo que começa a não fechar nessa história. Porque, se a escola precisa fazer tudo isso, quem está, de fato, assumindo o protagonismo?
A escola busca. A escola avisa. A escola cobra. A escola lembra. A escola organiza. A escola acompanha.
A escola corre atrás. E o aluno?
Bom… o aluno pode simplesmente esperar. E talvez seja justamente aí que esteja o problema. A escola, com a intenção de ajudar, de não ver seus tão buscados índices caírem (porque isso impacta negativamente todo mundo), acaba fazendo pelo aluno aquilo que deveria ser responsabilidade dele. E, quando isso vira rotina, não é difícil imaginar o que acontece: se alguém sempre vai fazer, por que eu faria? É uma lógica bastante simples e que, infelizmente, já foi aprendida por alguns estudantes com maestria. A receita é esta: se a escola já busca a atividade com o professor, eu não preciso procurar. Se a escola avisa minha família, eu não preciso contar nada. Se a escola vai dizer minha nota, eu não preciso acompanhar. Se a escola vai resolver aquilo que eu deixei de fazer, talvez eu não precise me preocupar tanto assim. E, aos poucos, a escola deixa de ser apenas o lugar onde o aluno constrói seus saberes e passa a funcionar como um grande centro de atendimento: tudo pronto, tudo organizado, tudo lembrado, tudo entregue. E nós, professores, pedagogos e demais profissionais da educação, vamos fazendo: fazemos aquilo que o aluno deveria fazer; assumimos responsabilidades que deveriam ser progressivamente compartilhadas com ele. E, depois, ainda precisamos dizer que o estudante é o protagonista.
O problema nunca foi ajudar. A escola precisa ajudar. Precisa acolher, acompanhar, orientar, compreender as dificuldades e criar condições para que o aluno aprenda. Mas existe uma diferença entre ajudar alguém a caminhar e caminhar no lugar dele. E estamos pulando algumas etapas importantes, não porque queremos, mas porque o funcionamento do sistema educacional nos leva nessa direção: os índices, as metas, as cobranças e os mecanismos de acompanhamento acabam dando o tom de muitas das ações da escola.
Por que o aluno precisa entender que ele também é responsável pelo próprio processo de ensino e aprendizagem quando a escola facilita todo esse caminho, retirando progressivamente dele a responsabilidade que deveria assumir? A escola que deveria conduzir o aluno, segurando-o pelas mãos, está carregando-o no colo.
Não adianta chamar isso de protagonismo estudantil. Acredito que o aluno precisa compreender suas responsabilidades, suas obrigações e as consequências de suas escolhas. Precisa aprender a procurar, acompanhar, participar, cumprir aquilo que lhe cabe. Depois vem a autonomia. E, com a autonomia construída, talvez venha o protagonismo. Não há problema nenhum em querer um estudante protagonista. O problema é querer chegar ao protagonismo saltando etapas fundamentais do processo.
Protagonismo é assumir a própria parte. É entender que aprender não é uma tarefa que a escola faz para o aluno, mas um processo que a escola constrói com ele. Talvez seja essa a conversa que esteja faltando. Antes de cobrar protagonismo, precisamos construir responsabilidade. A escola acolhe, acompanha, orienta e ajuda. Mas não pode caminhar no lugar do aluno. E o aluno, bem… ele precisa caminhar, perguntar, tentar, errar, acertar, tropeçar e, principalmente, assumir a responsabilidade pelo próprio caminho. Só então, com o tempo, com maturidade e com autonomia construída, o protagonismo deixa de ser apenas uma palavra bonita nos documentos e passa a existir de verdade, retomando e ressignificando a força que um dia já teve.