Entre fato e opinião
A turma entra falando alto. Não é novidade. As conversas atravessam a sala sem direção. Risadas no fundo, comentários perto da janela, cadeiras arrastando ao mesmo tempo. Ninguém parece pronto para começar, mas todos já estão ocupados.
Espero alguns segundos. Não muitos. O suficiente para ver se o silêncio aparece sozinho.
Não aparece. Uma estudante se aproxima:
— Prof! Tem gente ainda no refeitório, hoje foi feijão tropeiro.
O dia do feijão tropeiro era esperado por todos! Mas eu não podia esperar, o tempo voa! Escrevo no quadro:
fato / opinião
— Qual é a diferença?
Silêncio curto. Um aluno levanta a mão.
— Fato é… o que aconteceu.
— Certo. E opinião?
— O que a pessoa acha.
— Sim.
Viro de lado, olhando a sala.
— Se eu digo “está calor”, isso é fato ou opinião?
— Fato — alguém diz.
— Opinião — outro responde ao mesmo tempo.
Alguns riem.
— Os dois não é possível – digo!
— Depende — vem do fundo.
— Depende de quê? Pergunto.
— Da pessoa.
Assinto, sem concordar completamente.
— Vamos tentar outra. “Esta turma é agitada.”
Alguns se mexem. Um sorri.
— Fato.
— Opinião.
— Quem acha que é fato?
Poucas mãos.
— Quem acha que é opinião?
Mais mãos.
— Por quê?
Silêncio. Um aluno apoia a cabeça na mesa.
— Porque… depende.
— Depende de quê?
— Do professor.
Algumas risadas. Eu quase rio.
— Então o que é um fato?
— É tipo… comprovado.
— Comprovado como?
— Ah… que dá pra provar.
— Como?
O silêncio volta, mais longo.
Escrevo abaixo:
verificável
— Fato é aquilo que pode ser verificado. Independentemente de quem fala.
Aponto para o quadro.
— Opinião depende de quem fala.
— Então tudo é opinião — alguém diz.
— Não.
— É sim.
— Não.
— É, porque sempre tem alguém falando.
Respiro fundo.
— Nem tudo depende de quem fala.
— Depende sim.
— Se eu digo “hoje é terça-feira”, isso depende de mim?
— Se você estiver mentindo…
Algumas risadas.
— Não estou mentindo.
— Mas poderia estar.
Fico alguns segundos olhando para ele.
— Mas não estou.
— Mas poderia.
A conversa começa a se espalhar.
— Então nada é fato.
— É tudo opinião.
— Depende do ponto de vista.
Apago o quadro com mais força do que precisava. Fica um borrão escuro.
Escrevo de novo:
fato / opinião: expliquem e deem exemplos de cada um.
— Copiem e tentem fazer.
Ninguém se mexe.
— Vale visto.
As canetas aparecem. Cadernos abrem. O som do papel ocupa a sala.
Começo a andar entre as carteiras.
Mesma estrutura. Mesmas palavras. Alguns copiam exatamente. Outros colocam “eu acho” antes de tudo.
Paro ao lado de um aluno.
— “Eu acho que fato é quando…” — leio baixo. — Por que “eu acho”?
Ele dá de ombros.
— Porque eu acho.
— E se você tirar o “eu acho”.
— Fica estranho.
— Estranho como?
— Tipo… afirmando.
— É a ideia.
Ele olha para o caderno.
— Mas e se estiver errado?
Penso um pouco.
— A gente corrige depois.
Ele não parece convencido, mas apaga o “eu acho”. Fica um espaço vazio no começo da frase.
Mais à frente, outro levanta a mão.
— Professor.
— Oi.
— Precisa entender ou só copiar?
— Ajuda se entender, né?
— Mas pra nota?
— Ajuda também.
Ele assente devagar.
— Então vou copiar.
— Entender ajuda mais.
— Tá.
Ele continua igual.
No fundo da sala, alguém pede para sair.
— Posso ir no banheiro?
— Pode.
A porta abre, fecha. A conversa cresce e depois se dissolve.
Volto ao quadro.
— Vou dizer uma frase. Vocês analisem se é fato ou opinião.
Alguns levantam a cabeça.
— “A água ferve a cem graus.”
— Fato.
— “Esse filme é bom.”
— Opinião.
— “Dois mais dois são quatro.”
— Fato.
— “Essa aula está chata.”
— Opinião.
Risadas.
— Fato — alguém diz.
— Por quê? – Pergunto.
— Porque está mesmo.
Mais risadas.
Apoio o apagador na mesa.
— Então tudo que incomoda vira fato? – Instigo.
— Pra mim, sim.
— Mas não é sobre você.
— Mas sou eu que estou aqui.
Fico em silêncio por um instante.
O aluno que saiu volta. Entra sem pressa. Senta-se. Não pergunta nada.
Escrevo mais um exemplo:
“A Terra gira em torno do Sol.”
— Fato ou opinião?
— Fato.
— Por quê?
— Porque é ciência.
— E se alguém disser que não?
— Está errado.
— Por quê?
— Porque … está.
Apago metade da frase. Deixo só “A Terra”.
Olho para eles.
— Quem decide o que é fato?
Silêncio.
— O professor.
— Não.
— A ciência.
— Quem faz a ciência?
— Os cientistas.
— E quem são eles?
Ninguém responde.
Olho para o quadro incompleto.
— Tentem de novo.
Alguns já começam antes de eu terminar.
Volto a circular.
Dessa vez, menos “eu acho”. Não porque entenderam, mas porque perceberam que não devia aparecer.
Paro no mesmo aluno.
A frase começa direto.
— Melhor.
Ele não responde.
No final, recolho algumas atividades. Leio-as rapidamente.
Frases mais curtas. Menos dúvida.
Devolvo-as.
O sinal toca. Uma música instrumental curta, mas suficiente para marcar o encerramento da aula.
As cadeiras se movem ao mesmo tempo. As conversas retomam.
Fico alguns segundos olhando para o quadro.
fato / opinião
Apago devagar e sigo para a próxima turma.