O inglês que não servia

Em 2001, aos dezoito anos, recebi um convite que, para mim, tinha qualquer coisa de desafiador: voltar à escola onde eu havia estudado para trabalhar como professor. A escola ficava na roça. E eu conhecia bem aquele lugar.

Até poucos anos antes, eu estava do outro lado da sala de aula, sentado numa carteira como tantos que chegavam à escola depois de uma manhã de trabalho, de estrada de chão, de sol, de poeira e de uma vida que não tinha muita coisa a ver com os livros didáticos. Eu havia estudado ali até a antiga oitava série, a escola era a poucos passos da minha casa.  Depois tive de estudar em Brejetuba, ia e voltava todos os dias de ônibus. Fiz o ensino médio e, quando apareceu o convite para trabalhar na escola, aceitei.

Naquela época, havia uma dificuldade enorme para conseguir professores, principalmente para a zona rural, onde o acesso à cidade não era muito fácil. Se você tinha um nível de escolaridade um pouco acima da média da comunidade, já era uma opção em potencial.

E lá fui eu. Passei a ficar praticamente o dia inteiro na escola. De manhã, de tarde e, em alguns dias, também à noite. Entre as aulas que assumi, estavam algumas turmas de inglês. Eu fazia, na época, um curso em uma conhecida escola de idiomas. Não era exatamente um professor de inglês formado, evidentemente, mas eu me esforçava para que minhas aulas fossem, pelo menos, interessantes. Até que comecei a perceber uma coisa.

A aula de inglês parecia ser a primeira a ser sacrificada quando aparecia qualquer outra necessidade.

Reunião? Podia ser na aula de inglês. Confraternização? Na aula de inglês. Alguma atividade de outra disciplina? Sem problema, usava-se a aula de inglês. E assim, pouco a pouco, aquela aula que deveria acontecer uma vez por semana passava a acontecer quando sobrava tempo. Em algumas turmas, eu mal conseguia entrar uma vez no mês.

Aquilo começou a me incomodar. Talvez porque eu tivesse dezoito anos e ainda acreditasse que todas as disciplinas deveriam ter algum valor. Talvez porque eu estivesse descobrindo, justamente ali, que ensinar não era apenas transmitir conteúdo. Era também dizer, mesmo que entrelinhas, para o aluno: isso que você está aprendendo importa.

Esperei o conselho de classe. Naquele dia, fizemos o que se faz em todo conselho de classe: discutimos, fechamos as notas do trimestre, analisamos os casos mais difíceis, falamos sobre comportamento, aprendizagem, faltas e outros assuntos típicos desses momentos que, hoje, conheço muito bem! Quando tudo parecia terminado, pedi a palavra. Lembro-me disso até hoje. Falei sobre minha insatisfação. Disse que as aulas de inglês estavam sendo constantemente utilizadas para outras finalidades. Que havia turmas em que eu mal conseguia dar uma aula durante o mês. Que aquilo não me parecia certo.

Eu acreditava estar dizendo algo óbvio. A diretora me ouviu. E então respondeu. Não me lembro das palavras exatas. Já se passaram mais de vinte e cinco anos. Mas o sentido ficou gravado. Ela disse, em essência, que aquilo não era um problema. Perguntou se eu realmente achava que os alunos estavam interessados em aprender o verbo to be. E perguntou, de maneira ainda mais desconcertante, se um daqueles “roceiros” algum dia precisaria do inglês na vida.

A ideia era simples: eles haviam nascido ali, viviam ali e, provavelmente, morreriam ali. Tinham outras necessidades. E certamente o inglês não era uma delas. Portanto, não haveria problema em utilizar aquelas aulas para outras coisas “mais importantes”.

Eu saí do conselho muito decepcionado e triste. Não apenas porque minhas aulas estavam sendo desconsideradas, mas porque alguém que ocupava justamente o lugar de quem deveria defender a escola parecia ter decidido que aqueles alunos não precisavam de determinados conhecimentos. Eu não sabia exatamente o que pensar. Tinha dezoito anos. Não sabia como contestar uma diretora que era vista pela comunidade escolar e externa como alguém de pulso firme, que conduzia a gestão com disciplina e ordem. Nem devia contestar, afinal quem eu era realmente?  Só tinha a certeza de que ela estava errada.

Hoje, mais de duas décadas depois, sei exatamente o que me incomodava: o problema nunca foi o verbo to be.

O problema era a ideia de que alguém pudesse olhar para um estudante e, antes mesmo que ele tivesse a oportunidade de escolher seu próprio caminho, decidir quais conhecimentos seriam ou não necessários para a vida dele. Como se o lugar onde uma pessoa nasce determinasse o tamanho do mundo ao qual ela tem direito e até onde ela pode ir. Como se nascer na roça significasse ter de permanecer na roça. Eu fui um desses. Trabalhei na roça até os dezessete anos. Conheço a enxada, a terra, o sol forte, o trabalho pesado. E justamente o conhecimento foi uma das coisas que me permitiu ir além dos limites daquele lugar.

O inglês me abriu portas. O espanhol me levou a muitos lugares. O francês mudou minha vida e me permitiu viver experiências que eu jamais teria vivo se alguém tivesse decidido, por mim, que aquela língua não seria necessária. E é aí que está a diferença. A escola não existe apenas para preparar alguém para aquilo que provavelmente fará. Ela existe também para apresentar aquilo que essa pessoa sequer sabe que pode querer fazer um dia.

Ensinar uma língua estrangeira a um aluno da zona rural não significa dizer que ele precisa abandonar a roça.  Significa apenas não negar uma oportunidade antes mesmo que ela se apresente. Talvez ele nunca use aquela língua. Talvez nunca saia de sua comunidade. E está tudo bem. Mas essa decisão precisa ser dele. Não nossa. Não da escola. Não do professor. Muito menos de alguém que, sentado atrás de uma mesa de gestão, acredita saber qual deve ser o tamanho do mundo de alguém.

Hoje sei que se trata de uma violência silenciosa quando se nega o acesso ao conhecimento: a pessoa nem sempre percebe imediatamente que algo lhe foi tirado, por isso, é uma agressão perigosa. Quando dizemos a um aluno que determinada coisa não é para ele, podemos estar fazendo muito mais do que retirar uma aula de sua grade. Podemos estar dizendo que ele não deve desejar aquilo, que ele não precisa conhecer aquilo, pois pertence a outra pessoa, a outros lugares, a outros mundos.

Não tenho notícias daquela diretora há muitos anos. Não sei onde está, o que fez da vida, se ainda trabalha na educação. Provavelmente nem deve se lembrar de mim. Mas eu ainda me lembro dela e guardo a certeza de que ela estava errada. E talvez essa seja a melhor resposta que um aluno possa dar a alguém que um dia tentou determinar o tamanho do seu mundo: ir além dele.

Aquela escola ficava na roça. Eu nasci lá, vivi por lá até meus 19 anos. Mas o mundo, felizmente, não acabava lá.

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