Porque elas escolheram ficar
Nunca fui de festejar o Halloween, mas vivendo em Dublin percebi o quanto esse evento mobilizava a cidade e, claro, se era para viver uma experiência sociocultural plena, não poderia deixar passar essa data. Havia uma estranha coincidência entre o Halloween e as despedidas. Ambos pareciam depender da mesma matéria-prima: pessoas disfarçadas de alguma coisa que, no dia seguinte, já não existiriam mais.
Aprendi, nas aulas de inglês, que para os irlandeses festejar o Halloween era quase um retorno às origens. Foi naquela ilha que nasceu o antigo festival celta de Samhain, a celebração que marcava o fim da colheita e a passagem para o período mais escuro do ano. Acreditava-se que, naquela noite, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava tênue, permitindo que os espíritos vagassem entre os homens. Séculos depois, diz o professor Google, as tradições mudaram de nome, ganharam abóboras, fantasias e doces, mas a alma da celebração continuava ali, espalhada pelas ruas de Dublin. E a cidade brincava com o sobrenatural, uma lembrança que eles mantêm ainda bem forte.
Na Pim Street, aquela seria a primeira e a última festa de Halloween para um de nós. Talvez por isso Eli tenha levado tudo tão a sério. Ela tirou o dia de folga para ir ao centro comprar as maquiagens e as lentes de contato que pedimos, e ter tempo para montar sua própria fantasia. Sim, Eli era muito criativa! À noite, quando todos chegaram, a casa parecia um camarim improvisado. Estávamos afoitos para apresentar a fantasia mais “aterrorizante” possível. A Jô era, talvez, a mais animada com aquela noite. Era curioso perceber que, embora fantasiados, a convivência já nos permitia nos revelar de verdade. Depois de meses dividindo teto, louças, contas, silêncios e confidências, já não havia personagem que sobrevivesse.
O destino da noite era a The Camden, uma das discotecas mais famosas de Dublin. Fomos a pé, o caminho de uns 40 minutos já era quase automático, pois era o mesmo que fazíamos quando íamos à Dicey’s Garden, a casa de shows mais frequentada por brasileiros em Dublin. Caminhamos pelas ruas pouco iluminadas, mas já decoradas para o grande dia. Ao chegarmos à The Camden, notamos que a espera seria longa, a fila virava o quarteirão. Esperamos, agitados e nervosos. Na porta, o segurança pediu os documentos. Conferiu um, conferiu outro e, com a serenidade típica de quem apenas cumpre regras, impediu a entrada de uma de nós: a Jô. Faltava-lhe um único ano para cumprir a idade mínima exigida pela casa.
Um ano.
Argumentamos que seria a sua última noite em Dublin, que ela estava com as malas prontas para voltar ao Brasil, mas não adiantou. Um não irlandês não abre brechas para o “jeitinho brasileiro”. Sem saída, decidimos fazer um tour pelos pubs, que, àquela hora já estavam lotados. Como acontece com quase todos os grupos grandes, fomos nos desfazendo naturalmente. Alguns encontravam conhecidos, outros preferiam músicas diferentes, ou simplesmente desapareciam na multidão.
Mas, no fim da noite, nos encontramos para voltar para a casa. Exaustos, felizes e com muita fome. Paramos em um fastfood e, enquanto esperávamos, começamos a relembrar nossa chegada em Dublin. E as lembranças continuaram quando nos sentamos em círculo em uma calçada em frente ao restaurante. Com hambúrgueres nas mãos e o frio lembrando que novembro já se aproximava, conversávamos sobre aqueles meses que pareciam anos. Era impressionante como uma vivência estrangeira condensava o tempo. Pessoas que não se conheciam haviam se transformado em amigos, confidentes e, de certa forma, família. Talvez seja isso que as viagens façam conosco: comprimem uma vida inteira em alguns meses.
Na manhã seguinte, a casa estava mais silenciosa do que de costume. Ao acordar, descobrimos que a Jô havia partido cedo. Sem cerimônia, sem abraço coletivo, sem última foto na porta. Apenas seguiu para o aeroporto enquanto o restante da casa ainda dormia. Durante muito tempo, achei aquela despedida incompleta.
Hoje, penso diferente.
Nem sempre as pessoas vão embora quando as vemos partir. Às vezes elas permanecem nas canecas esquecidas no armário, nas histórias que eventualmente vêm à tona (e a Jô tinha várias!) e nas fotografias malfeitas… Enfim, a presença física passa, não porque queremos, mas porque se torna algo inevitável. No entanto, as lembranças, essas, permanecem, simplesmente porque elas escolheram ficar.