Um café com silêncio
Entrei naquele café público, uma espécie de cafeteria com um espaço de co-working, na tentativa de encontrar alguma tomada para o meu celular. Uma necessidade quase visceral nos tempos atuais. Uma bateria descarregada em um lugar desconhecido traz uma forte sensação de desemparo: sem acesso aos aplicativos de geolocalização, me perder nas ruas de Santiago era só uma questão de tempo! Pedi um café e um brownie, não podia usar o espaço sem consumir algo. Sentei-me em um dos bancos disponíveis com uma tomada livre e logo o café foi servido. Tudo muito saboroso.
Minha intenção era aproveitar o tempo do carregamento para revisar alguns pontos da minha apresentação de quarta-feira, verificar meus e-mails, e, principalmente, registrar minhas primeiras impressões sobre Santiago. Mas, para mim, escrever exige um certo silêncio. Sentada logo atrás de mim, uma jovem participava de uma reunião on-line. Sua voz era alta, aguda e incessante, e a reunião não parecia ter fim, nem intervalos. Ela falava como se estivesse sozinha no café, ignorando completamente que o espaço era compartilhado e o silêncio também deveria ser coletivo.
Confesso que comecei a me irritar. Cada frase interrompia a linha de raciocínio que eu tentava construir. Eu voltava ao texto, escrevia duas ou três linhas e, novamente, sua voz atravessava meus pensamentos. Curioso como um único som pode ocupar um ambiente inteiro, deixando-o insalubre. Lembro-me de que os melhores capítulos da minha dissertação e tese foram escritos nas longas madrugadas que eu passava diante de computador, apenas o barulho eventual de um carro ou outro, cruzando a avenida, ousava quebrar aquele silêncio produtivo.
Então, algo curioso me ocorreu: eu havia entrado naquele café para recarregar a bateria do celular, mas descobri que, para recarregar minhas ideias, uma tomada não bastava. Era preciso encontrar algo muito mais raro nos dias de hoje e que faz total diferença para mim: um pouco de silêncio.
Desisti. Bastou alguma carga na bateria, suficiente para que o GPS me levasse de volta ao hotel, caso eu me perdesse. Tomei o último gole do café, já frio, e saí. Ainda havia muitas ruas para percorrer e outras cafeterias para conhecer na cidade. Felizmente, para apreciar um bom café, o silêncio pode ser dispensável.