Um sonho com prazo para ontem

Em 2008, eu ainda estava bem no início de minha docência em francês, subindo degrau por degrau e, sonhando. Não sabia, ainda, que alguns sonhos, quando finalmente se realizam, tratam de chegar acompanhados de um pequeno detalhe burocrático, desses capazes de transformar a euforia em desespero em questão de minutos.

Naquele ano, eu me inscrevi em um programa de formação intensiva para professores de francês, oferecido pelo Governo Francês. Como eu já lecionava francês no, à época, Centro de Línguas da Ufes, podia concorrer. A proposta era tentadora: uma formação na própria França, voltada para professores de francês, com todas as despesas pagas.

Parecia bom demais.

Para participar da seleção, era preciso apresentar um projeto que seria desenvolvido quando voltássemos ao Brasil. Pensei, então, em algo que pudesse unir língua e cultura: trabalhar o passé composé e o imparfait por meio de biografias de personalidades francófonas. A ideia me agradava porque os dois tempos verbais, que tantas vezes provocam um caos na sala de aula, poderiam aparecer em situações concretas, contando histórias de vidas reais, o que certamente diminuiria seu caráter assustador para os estudantes.

Nesse processo, tive a sorte de contar com o apoio da minha coordenadora, a professora Telma Boubou. Ela me deu um suporte maravilhoso, daqueles que fazem diferença. Enviei a inscrição e, depois disso, restava esperar.

E esperei.

Até que, certo dia, a resposta chegou.

Naquela época, a maioria das notícias ainda vinham pelos Correios. Não havia a instantaneidade dos e-mails que hoje fazem qualquer boa ou má notícia aparecer na tela do computador ou do celular quase no mesmo instante. Era preciso abrir um envelope para descobrir o que o destino havia decidido.

E o destino, naquele dia, parecia estar de bom humor.

Eu havia sido selecionado.

Entre os candidatos inscritos de todo o Brasil, apenas 25 professores teriam a oportunidade de viajar para a França com tudo pago: passagem de ida e volta, curso de formação, alojamento e alimentação, e eu era um deles!

Eu ia para a França.

A França.

Para mim, aquilo tinha qualquer coisa de inacreditável. Não era simplesmente uma viagem internacional. Era a possibilidade de conhecer o país cuja língua eu ensinava, de estudar ali, de circular por um lugar que, até então, existia sobretudo nos livros, nas aulas, nos filmes, nas músicas e no imaginário de quem ensina francês.

Era um sonho.

Um sonho enorme, principalmente para mim que sempre fui tão sonhador!

E, como acontece com alguns sonhos enormes, ele resolveu testar até onde eu estava disposto a ir para realizá-lo.

Ainda eufórico, continuei lendo a documentação enviada. Havia instruções, prazos, formulários…

E então encontrei uma frase que fez meu entusiasmo diminuir alguns graus: era necessário enviar, com urgência, uma cópia do passaporte por fax.

Por fax.

E, segundo a mensagem, era preciso fazer isso “para ontem”.

Só havia um pequeno problema.

Eu não tinha passaporte.

Nenhum.

Nunca havia precisado de um. Entendam: nasci em Afonso Cláudio, morei em uma fazenda até meus 18 anos, quando precisaria de um passaporte?

Olhei novamente para o documento, como se a informação pudesse mudar numa segunda leitura.

Não mudou.

Eu tinha acabado de conquistar uma viagem para a França, com todas as despesas pagas, e descobrira que talvez nem sequer tivesse o documento necessário para sair do Brasil.

O sonho estava ali.

A França estava ali.

A bolsa estava ganha.

Só faltava o passaporte.

E, naquele momento, uma pergunta começou a martelar na minha cabeça:

será que eu ainda conseguiria viajar?

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